Um relato de Roberto Gutierrez que completa, em 22 de outubro, 50 anos que iniciou na comunicação.
Em 22 de outubro de 2026, completo cinquenta anos desde que ingressei no jornalismo. Entrei sem compreender que, paradoxalmente, já carregava mais passado do que futuro quando naquela época escrevi: Quando percebo que tenho muito mais passado do que futuro. Não por idade, mas por percepção. O tempo, mesmo quando parecia andar devagar, já se anunciava como urgência.
O barulho industrial das máquinas de escrever batendo sem piedade, como se cada tecla fosse uma pequena sentença definitiva. O ar pesado da fumaça de cigarros, os cinzeiros sempre cheios de bitucas esquecidas, vencidas pelo tempo antes mesmo de serem apagadas. Alguns amigos, muito mais velhos, carregavam no bolso uma pequena garrafa de aguardente, como quem precisa aquecer a lucidez para continuar escrevendo o mundo.
Eu observava tudo em silêncio.
Estava começando, mas já me sentia deslocado. Não pelo medo, mas pela forma como via o texto nascer. Diziam que jornalismo exigia nariz de cera, aquele rodeio respeitoso antes de chegar ao fato. Eu achava um desafio quase ofensivo criar um texto que começasse longe do que realmente importava.
Os mais experientes, senhores da sabedoria acumulada, não percebiam o quanto aquele lead discursivo já soava irrelevante. O tempo, mesmo andando mais devagar, pedia outra coisa. Clareza. Direção. Corte seco.
Criticaram meu texto.
Disseram que minha forma de contar a notícia era pobre. Talvez fosse. Mas eu insistia em escrever de maneira direta, clara, com linguagem simples. Não por falta de técnica, mas por respeito ao leitor. Intuía que o mundo não teria paciência eterna para rodeios elegantes.
Enquanto eles falavam em tradição, eu pensava em urgência. Enquanto defendiam forma, eu buscava sentido. Talvez por isso, mesmo tão jovem, me escapasse uma frase estranha para aquele tempo: a sensação de que havia algo de passado em mim antes mesmo de o futuro começar.
Comecei entre máquinas de escrever, mímiógrafos, fumaça, vozes mais velhas e certezas herdadas. Fui criticado por escrever de forma direta, simples, sem rodeios. Chamaram de pobreza o que era apenas recusa ao excesso. Hoje sei: era intuição de que o leitor não espera reverência, espera verdade.
Cinco décadas depois, o jornalismo mudou de ferramentas, de ritmo, de suporte. Mas não mudou de essência. O que permanece é a tentativa, sempre imperfeita, de contar o mundo com clareza antes que ele passe.
Talvez eu tenha começado cedo demais. Talvez tenha entendido tarde demais.
Mas continuo acreditando que escrever é isso: perceber o tempo enquanto ele ainda acontece. Hoje entendo. Não era pessimismo. Era percepção. Algumas pessoas começam a vida já com memória.
“Roberto Gutierrez é jornalista. Na comunicação desde outubro de 1976, passou por todas as mídias e há quase três décadas é editorialista e analista político.”
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