Há críticas legítimas, Ignorá-las seria ingenuidade política. Mas o preço do pedágio cabe a três instâncias: Executivo (União ou Estado) estrutura a concessão e assina o contrato. Agência reguladora (ANTT ou DER estadual) define, calcula e reajusta o valor do pedágio.
Roberto Gutierrez – Obras de infraestrutura quase nunca são neutras do ponto de vista político. Elas redistribuem custos e benefícios ao longo do tempo e, por isso, tendem a gerar conflito quando o ônus é imediato e o retorno é percebido apenas no médio ou longo prazo. É exatamente esse descompasso que explica a controvérsia em torno do pedágio da BR-364, em Rondônia.
A rodovia é o principal eixo logístico do estado. Sustenta o transporte de pessoas, o escoamento da produção e a integração regional. Qualquer alteração em seu custo de uso afeta diretamente a economia cotidiana e, por consequência, o humor do eleitorado. Nesse ambiente, a reação contrária ao pedágio não é apenas compreensível; é politicamente previsível.
O problema começa quando o debate deixa de ser técnico e passa a ser conduzido por incentivos eleitorais. A discussão sobre concessão, modelo tarifário, cronograma de investimentos e mecanismos de fiscalização cede espaço a narrativas simplificadas, centradas exclusivamente na rejeição ao custo imediato. Trata-se de uma dinâmica recorrente em contextos pré-eleitorais, nos quais a crítica rende mais visibilidade do que a formulação de alternativas viáveis.
Esse cenário favorece a atuação de atores políticos que não participaram da construção institucional do projeto, mas encontram na insatisfação popular uma oportunidade de reposicionamento público. A indignação passa a ser performada, não como instrumento de controle social, mas como estratégia de diferenciação eleitoral. O resultado é a erosão do debate qualificado.
É nesse contexto que o senador Confúcio Moura se torna um dos principais alvos. Seu histórico político está associado à lógica da gestão e da solução estrutural de problemas, não à exploração retórica de temas sensíveis. Ao defender a concessão como mecanismo de viabilização de investimentos contínuos, assume um custo político que muitos preferem evitar.
Isso não elimina as críticas legítimas. O valor do pedágio, a percepção de cobrança antecipada e a desconfiança histórica em relação a concessões rodoviárias são elementos reais do debate público. Ignorá-los comprometeria qualquer análise séria. No entanto, também é necessário reconhecer que a ausência de investimentos em uma das rodovias mais perigosas da região produz custos humanos e econômicos igualmente elevados, ainda que menos visíveis no curto prazo.
O que se observa é um conflito clássico entre racionalidade técnica e racionalidade eleitoral. O tempo da política é curto; o tempo da infraestrutura é longo. Decisões estruturais raramente geram dividendos imediatos, mas o desgaste ocorre no instante em que são anunciadas. Em sistemas políticos altamente sensíveis à opinião pública, poucos agentes estão dispostos a assumir esse risco.
Ao sustentar a necessidade da concessão, Confúcio Moura se posiciona fora da lógica do aplauso fácil. Isso ajuda a explicar a pressão que enfrenta. O desafio que se impõe agora é político e institucional: transformar uma decisão tecnicamente defensável em um processo com transparência, fiscalização efetiva e comunicação permanente com a sociedade.
A controvérsia sobre a BR-364, portanto, extrapola o tema do pedágio. Ela expõe a escolha entre dois modelos de atuação política: o da crítica imediata, sem compromisso com a viabilidade das soluções, e o da decisão estrutural, que cobra um preço político real no presente em troca de resultados futuros.
Em última instância, não se trata de quem vocaliza melhor a indignação, mas de quem assume responsabilidade sobre problemas complexos. A maturidade política de Rondônia será medida menos pelo volume do protesto e mais pela capacidade de distinguir discurso de entrega. A história costuma ser menos generosa com os que gritam e mais justa com os que entregam. O tempo dirá quem estava apenas surfando na indignação e quem, de fato, assumiu o peso das decisões difíceis.
Detalhe interessante
Cabe a três instâncias a regulamentação do preço do pedágio
Executivo (União ou Estado) estrutura a concessão e assina o contrato.
Agência reguladora (ANTT ou DER estadual) define, calcula e reajusta o valor do pedágio.
Concessionária cobra o valor dentro do que está autorizado no contrato.
Parlamentares não fixam o preço; no máximo influenciam politicamente.
Resumo em uma linha: quem manda no valor é o contrato + a agência reguladora, sob o Executivo.
“Roberto Gutierrez é jornalista. Na comunicação desde outubro de 1976, passou por todas as mídias e há quase três décadas é editorialista e analista político.”
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