USA x Irã, acordo rasgado e a Guerra anunciada

USA x Irã, acordo rasgado e a Guerra anunciada

A saída unilateral dos Estados Unidos do pacto de 2015 ajuda a explicar a escalada atual.

 

Argumento oficial

Fala-se em endurecimento, em ataque preventivo, em necessidade de conter o programa nuclear do Irã. A justificativa é direta: impedir que Teerã avance rumo à bomba.

Mas aqui começa a primeira contradição.

Em 2015, o mundo firmou um acordo, o JCPOA, que impunha limites, fiscalização internacional e redução do enriquecimento de urânio. Era um pacto imperfeito? Sim. Mas era um freio.

Em 2018, o então presidente Donald Trump retirou unilateralmente os Estados Unidos do acordo, firmado no governo de Barack Obama. Rasgou-se o pacto. Voltaram as sanções. A diplomacia foi substituída pela pressão máxima.

 

O programa “acabado” que não acabou

Há quem diga que operações militares e sabotagens já teriam eliminado o programa nuclear iraniano. Não eliminaram.

Após a saída americana do acordo, o Irã passou a ampliar seu nível de enriquecimento de urânio, justamente porque deixou de se considerar vinculado às restrições originais. O mecanismo de contenção perdeu força quando um dos seus principais fiadores decidiu abandoná-lo.

Ou seja: primeiro desmonta-se a cerca; depois reclama-se que o terreno ficou aberto.

 

Pressão para voltar ao que foi abandonado

Agora, volta-se ao discurso da necessidade de um novo acordo, ou da retomada de compromissos nucleares por parte do Irã.

Mas como exigir adesão plena a um pacto que foi rompido por decisão própria? Que garantia existe de estabilidade se o jogo pode mudar a cada eleição em Washington?

A diplomacia depende de previsibilidade. A política de força depende de cálculo de risco. Quando nenhuma das duas é consistente, o resultado costuma ser turbulência.

 

Guerra como solução?

Uma invasão direta seria mais que um capítulo regional. Seria uma ruptura de equilíbrio no Oriente Médio, com reflexos no preço do petróleo, na segurança global e na já frágil estabilidade internacional.

O mundo não vive vácuos. Cada movimento gera reação. Cada sanção gera resistência. Cada ataque gera resposta.

 

A lógica que não fecha

Se o objetivo é conter o avanço nuclear, desmontar o acordo que o limitava parece, no mínimo, paradoxal. Se o caminho é diplomático, ele precisa ser contínuo. Se é militar, precisa assumir seus custos.

Mas coerência nem sempre é requisito da política internacional.

Às vezes, o que falta não é estratégia.
É memória.

 

“Roberto Gutierrez é jornalista. Na comunicação desde outubro de 1976, passou por todas as mídias e há quase três décadas é editorialista e analista político.”

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