Quando Kleber Cabral, o presidente da UNAFISCO Nacional afirmou que seria “menos arriscado fiscalizar o PCC do que autoridades da República”, não fez um boletim de ocorrência.
Fez retórica
O Primeiro Comando da Capital não é metáfora. É organização criminosa violenta, com histórico de intimidação e morte. Todos sabem disso. Justamente por isso a comparação chama atenção. É exagerada? Sim. E exatamente por isso funciona.
Hipérbole não é fato. É recurso
O problema começa quando a reação institucional entra em cena.
Ao ser convocado a depor por determinação do ministro Alexandre de Moraes, o episódio deixa o campo da retórica e ingressa no campo simbólico do poder. A convocação pode ser juridicamente legítima. Pode estar inserida em investigação formal. Pode ser procedimento padrão.
Mas politicamente, produz outro efeito
A mensagem que ecoa não é jurídica. É simbólica.
Se um dirigente sindical faz uma crítica dura e horas depois é chamado à Polícia Federal, parte da sociedade não enxerga técnica processual. Enxerga força.
E força, quando responde a exagero com aparato estatal, corre o risco de validar o exagero.
Vivemos um momento delicado nas relações entre categorias de Estado e o Supremo Tribunal Federal. A tensão não nasce dessa frase. Ela já existia. A declaração apenas a condensou em uma imagem poderosa.
É preciso separar três coisas:
Crítica política.
Ataque institucional.
Ameaça concreta.
Confundir as três empobrece o debate democrático.
Nenhuma autoridade está acima da crítica. Nenhum agente público está acima da lei. O equilíbrio entre essas duas verdades define a maturidade institucional de um país.
A pergunta que fica não é se houve exagero. Houve.
A pergunta é outra:
O Estado responde melhor à hipérbole com silêncio estratégico ou com intimação formal?
Porque, às vezes, a reação ensina mais do que a frase.
“Roberto Gutierrez é jornalista. Na comunicação desde outubro de 1976, passou por todas as mídias e há quase três décadas é editorialista e analista político.”
Faça um comentário