{"id":41314,"date":"2026-01-11T07:54:40","date_gmt":"2026-01-11T11:54:40","guid":{"rendered":"https:\/\/folhaderondonianews.com\/news\/?p=41314"},"modified":"2026-01-11T07:54:40","modified_gmt":"2026-01-11T11:54:40","slug":"quando-percebo-que-tenho-muito-mais-passado-do-que-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/folhaderondonianews.com\/news\/2026\/01\/11\/quando-percebo-que-tenho-muito-mais-passado-do-que-futuro\/","title":{"rendered":"Quando percebo que tenho muito mais passado do que futuro"},"content":{"rendered":"<h2>Um relato de Roberto Gutierrez que completa, em 22 de outubro, 50 anos que iniciou na comunica\u00e7\u00e3o.<\/h2>\n<p>Em 22 de outubro de 2026, completo cinquenta anos desde que ingressei no jornalismo. Entrei sem compreender que, paradoxalmente, j\u00e1 carregava mais passado do que futuro quando naquela \u00e9poca escrevi: <strong>Quando percebo que tenho muito mais passado do que futuro. <\/strong>N\u00e3o por idade, mas por percep\u00e7\u00e3o. O tempo, mesmo quando parecia andar devagar, j\u00e1 se anunciava como urg\u00eancia.<\/p>\n<p>O barulho industrial das m\u00e1quinas de escrever batendo sem piedade, como se cada tecla fosse uma pequena senten\u00e7a definitiva. O ar pesado da fuma\u00e7a de cigarros, os cinzeiros sempre cheios de bitucas esquecidas, vencidas pelo tempo antes mesmo de serem apagadas. Alguns amigos, muito mais velhos, carregavam no bolso uma pequena garrafa de aguardente, como quem precisa aquecer a lucidez para continuar escrevendo o mundo.<\/p>\n<h3>Eu observava tudo em sil\u00eancio.<\/h3>\n<p>Estava come\u00e7ando, mas j\u00e1 me sentia deslocado. N\u00e3o pelo medo, mas pela forma como via o texto nascer. Diziam que jornalismo exigia nariz de cera, aquele rodeio respeitoso antes de chegar ao fato. Eu achava um desafio quase ofensivo criar um texto que come\u00e7asse longe do que realmente importava.<\/p>\n<p>Os mais experientes, senhores da sabedoria acumulada, n\u00e3o percebiam o quanto aquele lead discursivo j\u00e1 soava irrelevante. O tempo, mesmo andando mais devagar, pedia outra coisa. Clareza. Dire\u00e7\u00e3o. Corte seco.<\/p>\n<h3>Criticaram meu texto.<\/h3>\n<p>Disseram que minha forma de contar a not\u00edcia era pobre. Talvez fosse. Mas eu insistia em escrever de maneira direta, clara, com linguagem simples. N\u00e3o por falta de t\u00e9cnica, mas por respeito ao leitor. Intu\u00eda que o mundo n\u00e3o teria paci\u00eancia eterna para rodeios elegantes.<\/p>\n<p>Enquanto eles falavam em tradi\u00e7\u00e3o, eu pensava em urg\u00eancia. Enquanto defendiam forma, eu buscava sentido. Talvez por isso, mesmo t\u00e3o jovem, me escapasse uma frase estranha para aquele tempo: a sensa\u00e7\u00e3o de que havia algo de passado em mim antes mesmo de o futuro come\u00e7ar.<\/p>\n<p data-start=\"485\" data-end=\"780\">Comecei entre m\u00e1quinas de escrever, m\u00edmi\u00f3grafos, fuma\u00e7a, vozes mais velhas e certezas herdadas. Fui criticado por escrever de forma direta, simples, sem rodeios. Chamaram de pobreza o que era apenas recusa ao excesso. Hoje sei: era intui\u00e7\u00e3o de que o leitor n\u00e3o espera rever\u00eancia, espera verdade.<\/p>\n<p data-start=\"782\" data-end=\"990\">Cinco d\u00e9cadas depois, o jornalismo mudou de ferramentas, de ritmo, de suporte. Mas n\u00e3o mudou de ess\u00eancia. O que permanece \u00e9 a tentativa, sempre imperfeita, de contar o mundo com clareza antes que ele passe.<\/p>\n<p data-start=\"992\" data-end=\"1164\">Talvez eu tenha come\u00e7ado cedo demais. Talvez tenha entendido tarde demais.<br data-start=\"1068\" data-end=\"1071\" \/>Mas continuo acreditando que escrever \u00e9 isso: perceber o tempo enquanto ele ainda acontece. Hoje entendo. N\u00e3o era pessimismo. Era percep\u00e7\u00e3o. Algumas pessoas come\u00e7am a vida j\u00e1 com mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u201cRoberto Gutierrez<\/strong>\u00a0\u00e9 jornalista. Na comunica\u00e7\u00e3o desde outubro de 1976, passou por todas as m\u00eddias e h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas \u00e9 editorialista e analista pol\u00edtico.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<div class=\"mh-excerpt\"><p>Um relato de Roberto Gutierrez que completa, em 22 de outubro, 50 anos que iniciou na comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>","protected":false},"author":1,"featured_media":41315,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[1493],"class_list":["post-41314","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-coluna-do-gutierrez","tag-roberto-gutierrez"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/folhaderondonianews.com\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41314","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/folhaderondonianews.com\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/folhaderondonianews.com\/news\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaderondonianews.com\/news\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaderondonianews.com\/news\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41314"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/folhaderondonianews.com\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41314\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":41316,"href":"https:\/\/folhaderondonianews.com\/news\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41314\/revisions\/41316"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaderondonianews.com\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media\/41315"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/folhaderondonianews.com\/news\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaderondonianews.com\/news\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/folhaderondonianews.com\/news\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}