Ouro Preto/RO dá adeus a matriarca da família Travaim

Hilda Travaim sobre vista parcial de um dos primeiros desfiles de Sete de Setembro em Ouro Preto/RO quando ainda era projeto de colonização do Incra. - Arte: Roberto Gutierrez
Hilda Travaim sobre vista parcial de um dos primeiros desfiles de Sete de Setembro em Ouro Preto/RO quando ainda era projeto de colonização do Incra. - Arte: Roberto Gutierrez

Roberto Gutierrez – Morreu na tarde de ontem 07/11, de falência múltipla dos órgãos, aos 94 anos de idade, na cidade de Ouro Preto do Oeste, em Rondônia, a Matriarca da Família TravaimHilda Brito Travaim. Com a saúde fragilizada, a baiana de Caeté passou os últimos cinco anos de vida acamada, sob cuidados especiais. Dona Hilda era viúva desde 1994 do seu Guerino Travaim. O velório dela acontece na Associação Nova Vida e o sepultamento está previsto para as 16 horas de hoje no Cemitério Samaritana – setor Industrial, saída para o Vale do Paraíso. Dona Hilda deixa sete filhos, 16 netos, 21 bisnetos e um tataraneto. Valquírio, Vanderlei, Valter, Vilma, Valmir, Vanda e da empresária Vera Lúcia Biachini são os filhos. 

A vinda pra Rondônia 

Dona Hilda chegou a Ouro Preto, interior de Rondônia, com o marido Guerino Travaimem 1976. Uma ventura em busca do desconhecido cujo convite para a vinda da família foi feito ao Vanderlei Travaim, por Devanir, o Vandinho da Ceplac, em 1973. Mas, só três anos, quando as coisas ficaram ruins no mercado de madeira em Ivinhema, no Mato Grosso do Sul, foi que Vanderlei se lembrara do convite feito pelo amigo, e foi sozinho a Rondônia conhecer. Vanderlei nunca tinha visto tanta floresta em sua vida. Ele perceberá que ali era o começo de uma nova era. Foi a partir daí que a família vendeu tudo e se mudou para Rondônia. 

Travessia do Atlântico 

Mas, antes de contar sobre essa viagem de pelo menos oito dias rumo a Rondônia, na qual ‘seu’ Guerino trouxe uma serraria, 20 cabeças de gado, dois caminhões de mudança, uma caminhonete, papagaio, um cachorro que caiu da mudança na estrada e se perdeu, além da família com 16 pessoas, eis que essa aventura remete, de certa foram, aos encentrais do ‘seu’ Guerino, o caçula dos homens de 13 filhos do Italiano Nicola Travaim, que migrou para o Brasil e se tornou um grande fazendeiro de café na cidade de Pereira de Freitas, interior de São Paulo. Nicola faz parte das famílias de italianos, vindas de navio, que foram convidados para trabalhar no Brasil. 

Baianinha encantadora 

Um pouco antes da Segunda Guerra Mundial, a família de dona Hilda saiu da Bahia para trabalhar no interior de São Paulo nas lavouras de café. Não demorou muito para a bela jovem conquistar o coração do ‘seu’ Guerino. Havia, de certo modo, alguma resistência quanto ao namoro às escondidas de Guerino e a bela ragazza baiana. Imagine a cena: a filha de um simples braçal da fazenda, que sequer frequentava a casa grande, se casar com o herdeiro de um fazendeiro rico. Mas Hilda também havia despertado interesse do sobrinho de Guerino, só que nesta disputa, o filho caçula do seu Nicola levou a melhor e se casou com a bela Hilda. Foi uma festa memorável ao estilo bem italiano. 

Desafios 

Morar na casa grande foi um exercício de humildade, educação, persistência e muita sabedoria, pois, ela, não fazia a menor cerimônia de lavar os pés do sogro quando chegava da labuta, aos fins de tarde, e cuidar dos afazeres da casa. – Era coisa demais! Com jeitinho, conquistou admiração da família e se tornou a queridinha da casa. 

Destino

A vinda da dona Hilda e toda a família dela para Rondônia tem um comparativo de espírito de aventura em busca do desconhecido feito para poucos. Assim como a família italiana que atravessou o Atlântico para chegar ao Brasil; assim como os pais dela que, pouco antes da segunda Guerra Mundial, saíram da Bahia para o interior de São Paulo e, num passado mais recente, a epopeia dos herdeiros desse espírito de coragem rumo à última fronteira agrícola do país chamada Rondônia.  

Foi Ouro Preto do Oeste que se construiu uma nova história dessa família numerosa e unida que hoje se despede da mulher dos ensinamentos de vida, cuja casa, sempre esteve aberta para receber, cujos netos, muitos ajudou a cuidar em ensinar. 

Certa vez um mecânico da serraria estava, em tom de brincadeira, ensinando um dos netos da dona Hilda a xingar. Ele não percebeu que dona Hilda estava por perto. Sem levantar o tom ou acusá-lo de alguma coisa, ela se voltou ao mecânico e disse: “se não tiver nada de bom para ensinar ao menino, não ensine nada”.  

Em outra oportunidade, um dos netos, de sete anos, ganhou uma bicicleta e corria muito risco, pois fazia imprudências e não parava mais em casa. Dona Hilda não brigou ou reprimiu a criança. Disse que a bicicleta está levando seu neto ao convívio de más companhias. Assim, ela colocou a Bicicleta de castigo por 30 dias. A criança se sentiu culpada pela pena importa à bicicleta.  

Hilda Travaim era católica fervorosa, participou da criação de grandes movimentos da Igreja Católica em ação à comunidade. Adorava jogar truco, canastra e buraco. Tinha o dom de contar causos e piadas. Seu carisma foi preponderante para, junto com a família, ajudar a eleger uma das filhas vereadora em 1982 – a hoje empresária Vera Bainchini.

Mesmo acamada há cinco anos, não perdeu a serenidade e sua fé nas pessoas. A nora Nete Travaim foi quem cuidou da matriarca da família.   

A imagem pode conter: carro e atividades ao ar livre

  

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